Jornal do Papi
 

Aconteceu quando eu trabalhava em uma Secretaria Municipal. O chefe do departamento onde eu estava alocado, um jornalista gordo e corrupto, tinha prazer especial em me esculhambar, talvez por sadismo doentio, talvez por necessidade de afirmar seu poder.

Além de me ocupar com trabalhos absolutamente insanos e que não serviam pra nada, me forçava a denunciar colegas que não trabalhavam. O que era também desnecessário, pois era óbvio pra quem quisesse ver que ali, além de mim, ninguém trabalhava. Principalmente a estagiária loirinha, a quem o gordo tratava muito bem...

Assassinar uma pessoa era uma idéia que nunca havia me passado pela cabeça. Mas, depois de algum tempo de humilhações e achincalhes, decidi matar o cara. Porém, precisaria fazê-lo de forma cruel, para que a vingança fosse satisfatória e que não despertasse suspeita. Lembrei então que, escondido em algum armário, havia guardado um conjunto de zarabatana e setas envenenadas com curare, o veneno das selvas, produzidas por índios bororós, que meu pai trouxe certa vez do Mato Grosso.

Não sei como tive coragem, naquela tarde, de atrair meu chefe a uma sala vazia, com o pretexto de mostrar o trabalho insano e interminável que ele me dera como tarefa, e medindo a distância segura, desferir golpe certeiro naquele pescoço largo. Internado e diagnosticado como doente dos pulmões, meu chefe morreu em poucos dias, sem deixar saudades. Meses depois, impune e sem ter conseguido terminar o catálogo de itinerários das 1.365 linhas de ônibus da cidade, pedi demissão, coisa rara no serviço público.



Escrito por S. Papi às 11h08
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