Jornal do Papi
 



Escrito por S. Papi às 18h47
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O Lobisomem é errante


Meio humano, escrevo o meu segredo nas madrugadas, quando as folhas ardentes, crepitantes, se lançam como loucas ao vento. Carrego, errante, pelas noites minha alma partida, minha esquizofrenia zoomórfica, teratológica, minha estranheza de lobo, laboratório de mim mesmo, minha singular propriedade. Seguindo pelos caminhos noturnos, lunares, quando se ouve o ardor dos muros e as frestas das encostas derramam lamentos que eriçam meus pêlos, corro e uivo, corpo quente cortando o gélido sereno. Sou um semideus ou procedo de uma terra perdida, sou um mito que ouve com orelhas desumanas, o tilintar preciso das pedras do tempo, que constrói uma lenda há muito tempo. Em ciclos, me reinvento, invenção incontrolável, e se é uma doença a licantropia, então eu busco a cura a qualquer preço, lambendo minhas feridas, nas noites nem dormidas, a vagar sob os raios frios do astro de prata, meu espelho. E só balas dessa prata no meu peito, varando meu couro duro, para findar o conflito que me avassala, o medo humano dos passeios, a morfose, quando o lobo escapa, insaciável, sob a lua cheia. A doença será essa cólera que me toma ou a coleira que me amarra, a jaula da condição humana? Fugitivo, fujo de ser prisioneiro, de ser passageiro, indefinido. Escrevo com o sangue das minhas vítimas o meu segredo, descendo as escadas dos edifícios, disfarçado, pisando as calçadas das avenidas. Flamejantes, meus olhos nos olhos das passantes, meus dentes caninos na pele das transeuntes. Possuído, repleto de pêlos e de cobiça, minhas unhas grandes na seda humana, deixando os tecidos das pétalas em carne viva.

>>Vejam o album do Lobisomem

O Lobisomem é livre
 
Além dos chamados lancinantes da minha natureza, também a inteligência me oferece idílios. Nem os raios da lua cheia, que amo acima de qualquer outro espetáculo, me provocam tantos tumultos na alma, quanto as folhas crepitantes, que o vento, em remoinhos, faz dançar na calçadas. Com uma alegria confiante, atravesso, em minha louca correria, esses vórtices ardentes que emergem das pedras do calçamento para saudar, com empenho arrebatador, os postes de luz que enfeitam as avenidas desertas. Então presto tributos, com pêlos e salivas que despendo, enquanto corro e uivo pelas ruas, às noites doces, em que a lua faz tão iluminada a cidade e que inundam meu coração de lobo errante. Delírio febril que os homens não sentem, pois já não percebem os reflexos do cosmo nas folhas que se entregam, como eu, aos impulsos e vertigens.



Escrito por S. Papi às 18h39
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